O moinho da “Tia Micas Moleira”: moinho com jeito de museu

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Olá e seja muito bem-vindo. Esta é a História das Histórias. Alberto Correia está em Viseu e eu, João Paulo Sacadura, estou aqui só para acolhê-lo e ouvir estas histórias que gosto tanto e com quem aprendo tanto. Neste caso, hoje vamos falar do Moinho da Tia Micás Moleira. Vamos até Vila de Moinhos pela mão do Alberto Correia. Bem-vindo, Alberto.
Em Vila de Moinhos, há uma lenda antiga onde se contam lutas de moleiros de Vila de Moinhos e de camponeses de Viseu com hortas na ribeira, que ambos precisavam no verão das águas do rio Pavia. Diz a lenda que os moleiros levaram suas queixas ao tribunal del-rei e que, ao tempo, fizeram a promessa ao São João de que fariam anualmente uma romagem à sua capela da carreira nas margens de Viseu, caso o rei decidisse a seu favor. E o rei, ouvindo-os, decidiu a seu favor. Nasceram, deste modo, as cavalhadas do dia de São João, o dito santo precursor, como chamam ali ao padroeiro. E o Moinho da Tia Micás Moleira, que é agora uma casa de memória, é o sítio certo para o contar desta história e de todas as histórias da gente de Vila de Moinhos, dos cesteiros, dos canastreiros, de colchas e dos graciosos tapetes de lã. E dos seareiros que lavravam a terra para a semente crescer e de tantas mais histórias de moleiros e de padeiras e de fornos. E essa história linda do fazer do pão, a broa de milho, a broa trombela, que era o pão de cada dia que as padeiras iam vender à praça de Viseu. Histórias do peneirar do pão, da batedeirinha, do lento levedar da massa na bacia, do aquecimento do forno com lenhas de pinheiro, de broa a ganhar dentro do forno a cor do ouro e depois a encher o tabuleiro. E a festa que era cada refeição. O velho Moinho da Tia Micás Moleira, à beirinha do rio, é agora o fiel contador destas histórias do rio, da terra e do trabalho. É vida memória, um património, um museu. O Moinho da Tia Micás Moleira, antes de ser um cantador de histórias, era um moinho como os outros. À beirinha do rio, dois cabucos onde a água saltava, batida pelas penas do rodízio que girava. Um veio fazia girar a mó andadeira sobre o pé que era a mó dormente. O nome verdadeiro da Tia Micás Moleira era Maria de Jesus Ferreira. Nasceu em Órgens e casou em Vila de Moinhos com o senhor Francisco Cândido. Ele era filho de moleiros. Ela não, mas aprendeu, ficou moleira. Habitaram a casa por cima do moinho. Francisco Cândido trabalhava de canteiro. Saía de madrugada, deixava a moega carregada com 200 quilos de milho. Tia Micás vigiava o cantar das mós. Chamava os fregueses, recebia o grão e entregava a farinha. Como paga, tirava a maquia. Era séria, alegre e bondosa. E chamaram-na Tia Micás Moleira, como se fosse da família. Nasceram os filhos e para eles adormecerem, as mós passavam a noite a cantar. À noite, o moleiro enchia a moega. Nem havia tempo para a mó descansar. E velavam, não fosse a água faltar, não fosse o grão deixar de saltar. Um dia, a Tia Micás Moleira ficou viúva, mas ficou moleira. Servia os fregueses até que ficou cansada. Fechou as cales para o rodízio, quedaram-se as mós. Os filhos da Tia Micás Moleira não quiseram ser moleiros. E já não havia fregueses nas aldeias. A farinha, à cidade, chegava de outros mercados. Mas teve sorte o moinho. O genro da Tia Micás, o Firmino Toipa, que é um filho de adoção, aprendeu a arte, recuperou o moinho e fez dele um museu.
E assim não se perde esta história e também esta casa, que foi o Moinho da Tia Micás. Muito bem, muito boa ideia deste genro, deste Firmino. Muito bem, fico muito contente por ter salvo este património e trazido aqui pelo Alberto Correia. Marcamos encontro então amanhã. Bem-haja, Alberto.
Até amanhã.
observador




